Natália Flach - São Paulo
Quando a crise econômica desembarcou no Brasil, em setembro do ano passado, investidores estrangeiros logo suspenderam a remessa de recursos para o país. Mas agora que a poeira baixou, os recursos estão de volta, com atenção especial para o mercado imobiliário. Quase um ano depois do início da turbulência financeira, a entrada de capital, entre janeiro e agosto, para construção foi de US$ 859 milhões, equivalente a 5% do volume total de investimento externo no país, de acordo com o Banco Central.
O Brasil desperta interesse principalmente depois de ter obtido grau de investimento em 2008. A nomeação do Brasil como sede da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, e o desenvolvimento de projetos governamentais de incentivo à economia, como o Programa de Aceleração do Crescimento e o Minha Casa, Minha Vida, também são grandes atrativos.
Para Rodolpho Vasconcellos, conselheiro da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (Ademi RJ), os grandes responsáveis pela vinda dos estrangeiros é a estabilidade econômica e a profissionalização do setor. "A abertura de capital de algumas empresas, que anteriormente tinham um perfil familiar e, agora, contam com executivos no comando, foi o pontapé inicial do processo de expansão do setor. Junte-se a isso as medidas regulatórias -implantadas a partir de 2004, para reforçar as garantias ao financiador - e tem-se o cenário econômico perfeito para o atual, boom na construção", afirma.
É por isso que a empresa americana Tishman Speyer está estruturando um novo fundo de investimentos para atuar no setor imobiliário brasileiro. Segundo Daniel Cherman, presidente da companhia, o Fundo Brasil 3 vai receber um aporte de R$ 700 milhões a R$ 800 miIhões, e deve ser lançado até o fim do ano. "Por causa da queda da taxa de juros, os fundos de pensão estão tendo dificuldades para atingir uma certa rentabilidade. Assim como eles, nós também estamos revendo as nossas taxas." Por isso mesmo, Cherman prefere não revelar a rentabilidade esperada, mas adianta que "tudo vai ser feito nos mesmos moldes que nos outros fundos"
O Fundo Brasil 3, como o nome diz, não é o primeiro fundo lançado pela Tishman no país. Em 2007, a empresa lançou o Fundo Brasil 1, e no ano seguinte, o Fundo Brasil 2.Juntos contam com R$ 1,5 bilhão e com 27 investidores de diversas nacionalidades, fundos de pensão privados e públicos, corporações, companhias de seguros, bancos, governos estrangeiros e pessoas físicas. Parte dos recursos foram aplicados nos projetos Rochaverá Corporate Towers e Landmark, em São Paulo, e Ventura Corporate Towers, no Rio.
"Quando os investidores pensam em América Latina, logo se lembram de Brasil, Colômbia e Peru", diz João Francisco Regos, advogado e sócio do escritório Trench, Rossi e Watanabe. Ele explica que isso se deve principalmente à maturidade do mercado imobiliário desses países. No Brasil, Regos lembra que o déficit habitacional também desperta interesse. "Os investidores não veem apenas Rio e São Paulo."
Legislação ainda é um dos grandes entraves para a vinda de novos investidores externos
Para Daniel Cherman. presidente da Tishman Speyer, um dos grandes empecilhos para a entrada de novos aportes estrangeiros no país tem sido a desvalorização do dólar. "É por isso que a gente está investindo em reais. Agora, se o investidor quiser fazer hedge, fica a critério dele", afirma.
Ricardo Betancourt, presidente da Colliers, aponta outro entrave: "a nossa legislação é o custo Brasil do mercado imobiliário". Segundo ele, a lei de locação brasileira foi feita para atender ao mercado residencial. "Por isso, os contratos são facilmente cancelados. No Brasil, é fácil cancelar e pagar multa; no exterior, as companhias que enfrentam dificuldades em pagar os aluguéis acabam por sublocar o imóvel", compara. 0 Secovi-SP tem estudado esse assunto.
"Precisamos de uma lei ou de uma regulamentação para proteger locatários e tocadores. Deve ser diferente do contrato de residenciais", afirma João Crestana, presidente da entidade. Mesmo com esses problemas, Francês Reynolds, presidente da consultoria Reynolds Ventures, diz que os investidores estrangeiros estão atrás de bons negócios. "Mas faltam parceiros no Brasil com conhecimento do mercada e com prestígio. Não há uma escala máxima para os investimentos no Brasil. Projetos de turismo, plataformas logísticas e imóveis comerciais têm dado bons retornos", afirma. N.F.
Grandes imobiliárias captam dinheiro de fundos
Mais de 50% das ações das empresas que fizeram oferta este ano foram parar com investidores externos
As empresas de construção e gestão de imóveis não podem reclamar do interesse de investidores estrangeiros em projetos no mercado brasileiro.
Segundo dados do Banco Central, somente no mês de agosto as empresas do setor captaram mais de US$ 100 milhões no exterior. No acumulado do ano, a atividade imobiliária respondeu por 2,2 do total de dólares que entraram no pais, enquanto as atividade de construção somaram 2,7%. O número é pequeno em relação ao ano passado, quando todo o setor atingiu 7%, mas há fortes sinais de recuperação. "A visão estrangeira sobre o país é bastante positiva, principalmente por causa dos resultados macroeconômicos", afirma Cássio Audi, diretoi financeiro e de relações com investidores da Rossi. Não é para menos que, durante a oferta pública das ações da companhia, os estrangeiros tenham abocanhado 55,5% dos 74 milhões de papéis.
"A operação foi expressiva, o que deixa a empresa ainda mais sólida", acrescenta.Os mais de R$ 928 milhões arrecadados vão ser usados, segundo Audi, na compra de terrenos e como capital de giro. "Hoje, o banco de terrenos da companhia é de R$ 20,9 bilhões [segundo dados do segundo trimestre], 47% deste total está voltado para a baixa renda."
"A percepção de risco no Brasil é muito menor. A queda na taxa de juros e a inflação sob controle tem ajudado muito nessa percepção", acredita. Audi diz ainda que se o cenário se mantiver estável, em médio e longo prazo, o apetite estrangeiro vai ser cada vez maior "E as empresas que têm história e competência vão se destacar."
É o caso da MRV Engenharia. Os estrangeiros foram responsáveis pela compra de 70% das ações da companhia, em junho deste ano. A companhia levantou mais de R$ 722 milhões com a distribuição pública. Segundo Rubens Menin, presidente da empresa os recursos vão ser usados para antecipar em dois anos um projeto da companhia chamado "MRV 40 mil", no qual pretende construir mais de 40 mil casas em 2010.
Outra empresa que se destacou pela participação estrangeira na distribuição pública de ofertas foi a Multiplan. A companhia ofertou 29,9 milhões de ações ordinárias e os estrangeiros arremataram 73,85%, ou 22.082.437 papéis. Parte deles foi parar nas mãos de clientes de bancos interessados em proteção (hedge) com derivativos no exterior, da UBS AG de Londres, do Credit Suisse da Europa e do Morgan Stanley.
Fonte: Jornal Brasil Econômico | 17 de outubro de 2009 | Empresas | 24 e 25